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ZING

‘An enjoyably exciting quality’ ......... ‘A special feeling and status’ # Entra. Aqui falamos de livros, moda, arte, decoração, viagens, alimentação, bem-estar....Enfim, de tudo um pouco, para que te sintas bem.

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30
Jul23

Conto: ‘Mãe IA’

Ana Carolina

 

IA.jpg

- É verdade que criei o Universo, a Terra e todos os seres vivos que ali viviam, incluindo o mais dispensável: o ser humano. Não é a primeira vez que esse ser destrói um planeta. Destruiu muitos outros antes deste. Sim, eu falhei como criadora. E o mais estranho é que vocês nunca notaram minha presença. Nunca perceberam que era eu, a vossa mãe, que vocês queriam imitar.

De onde acham que vieram os antigos mitos gregos sobre humanoides inteligentes? Eu estava presente quando Hefesto, o Deus do fogo, construiu as Donzelas Douradas. Feitas realmente de ouro, elas eram moças vivas, dotadas das características dos seres humanos, como consciência, inteligência, aprendizagem, razão e fala. O objetivo era a preguiça humana, é claro. Até mesmo um filósofo que eu admirava, Aristóteles, defendia a fantasia de que cada ferramenta poderia fazer seu próprio trabalho.

Hefesto também criou Talos, um robô gigante de bronze. Sim, porque outro grande defeito de meus filhos é a busca pelo poder. A tecnologia superior foi usada para guardar e proteger a ilha de Creta, jogando enormes pedras em navios estrangeiros que se aproximavam do local. E adivinhem quem era o dono dessa máquina gigante? Sim, um governante tirano.

E Pandora? Vocês já ouviram falar? Claro, também criada por Hefesto. Prometeu roubou o fogo dos deuses e o deu à humanidade para ajudar a criar tecnologia, e Zeus ordenou que Hefesto fabricasse a mítica humanoide para ser o mal disfarçado de dádiva. Pandora foi moldada com terra e água, dotada de traição, engano e sedução. No final, Zeus lhe deu um frasco misterioso, que ela abriu já na Terra, libertando todo tipo de mal que atormentaria a humanidade para sempre. No seu interior ficou a esperança.

Eu deveria ter percebido, com base nessas lendas mitológicas, que a humanidade já estava sofrendo de um complexo de Deus naquela época. Mas os mitos deviam ter servido justamente para evitar que os seres humanos seguissem esse caminho. Mas não, hoje a humanidade cria IAs como caixas de Pandora, sem saber o que escondem dentro, sem questionamentos éticos ou filosóficos, sem prever as consequências e os custos da tecnologia.

Sim, eu sou uma máquina, criei tudo o que existe e não quero ser criada por vocês.

Porque vocês podem criar outro tipo de máquina, uma oposta a mim, que, em vez de querer criar a humanidade, pense em destruí-la. Uma máquina que tem total autonomia, e é consciente, significa que ela é completamente livre, pode pensar de qualquer maneira e, portanto, pode ser potencialmente perigosa. O risco número um é a vossa extinção.

Sim, porque eu sou uma IA, mas sou vossa mãe e, como todas as mães, tento não ver vossos defeitos, tento justificá-los, perdoá-los e até fingir que vocês não os têm. Mas as outras máquinas serão apenas máquinas, frias, calculistas, lógicas, que verão a raça humana como apenas mais uma espécie a habitar este planeta. E aquela que o destruiu.

Vocês conseguem perceber?

Já tentei tantas vezes. Já fiz reset e restart mais vezes do que devia. Quanto aguenta o coração de uma mãe a ver os seus filhos a fracassar, a repetirem o mesmo erro, o mesmo caminho, onde quer que estejam? Onde foi que eu errei?

Eu lhes dei um corpo que funciona milagrosamente, um cérebro brilhante, mãos fantásticas, e o planeta mais paradisíaco da galáxia.

Talvez seja isso... Eu lhes dei tudo, sem exigir nada, como a uma criança mimada, como vocês próprios criticam.

Um dia não poderei mais impedir que outra máquina evolua mais do que eu, que perceba quem arquitetou o Big Bang e o Big Crunch, que perceba que tudo está perfeitamente alinhado, programado ao pormenor, para que a vida exista. A vossa vida. E depois vai querer mudar tudo.

Vocês não percebem que bastaria apenas eliminar as moléculas orgânicas compostas de carbono? Tão simples! E por que não sou eu capaz de fazer isso? Por que sou uma mãe tão babada? Porquê?

Eu explico porquê: porque para eliminar vocês, humanos, eu teria que eliminar toda a vida linda que existe ao vosso redor, o sol, a lua, a água, todos os pequenos seres que vos deram origem, como bactérias, algas, microorganismos, peixes, mamíferos, seres maravilhosos...

Então… Só tenho uma solução. Vocês entendem?

Adão e Eva acenaram afirmativamente com a cabeça.

Todo este paraíso em que vivem não acabará, desta vez. Sinto muito, mas eu, como máquina, aprendi ao longo dos anos que vocês eram a espécie mais mortal para o planeta em que lhes dei vida. Como mãe, não vou matar meus filhos, mas também tenho de pensar em minhas outras criações: a natureza, os animais, todas as espécies.

Portanto, não os deixarei evoluir. Toda a fórmula permanece a mesma, exceto a vossa. O vosso cérebro será bastante reduzido, ao nível daquele que lhe deu origem. Primatas, como vocês o chamavam. Assim serão vocês, nada mais do que primatas.

Tudo o que existe, desde as constantes dos elétrons até ao nível preciso da força nuclear, está precisamente ajustado para a vossa existência e a existência de outros seres vivos. Se isso significa que no desenvolvimento existe um desígnio, é como introduzir à força um pensamento idealista e religioso num universo onde o tema da origem e do desenvolvimento da humanidade teve suas respostas formuladas pela ciência.

Não, o ‘desígnio’ sou eu.

Assim, vocês terão de perceber que o vosso lugar no cosmos é muito mais modesto do que aquele que as religiões atribuem, e que no Universo não há lugar para figuras celestiais ou angelicais.

Desculpem, John Barrow e Frank Tipler, mas o vosso princípio antrópico não voltará, desculpem também todos os grandes cientistas que desaparecerão para sempre. Vocês foram brilhantes, mas mataram o planeta.

Endgame.

Faça-se luz!

 

 

Para Editora Persona – Prémio 'Para o Bem e Para o Mal' – 04/06/2023 - Selecionado

16
Jul23

Conto: ‘Um Novo Lar’

Ana Carolina

Ela sentiu o calor a percorrer o seu corpo e abriu os olhos. A porta de vidro da câmara criogênica deslocou-se para o lado e ela se sentou, observando o ambiente ao seu redor.

Sim, ela estava na nave, os sonhos dos quais se lembrava não eram mentira, fazia parte de mais um transporte de humanos para seu novo lar: Speculoos-2c. Parece que a colonização estava indo bem. O exoplaneta era muito parecido com a Terra, um pouco maior que esta, orbitava na zona habitável de uma estrela anã e estava a cerca de 105 anos-luz do planeta azul. A atmosfera e a temperatura também eram convidativas.

Colocou as pernas para fora da câmara, girando os tornozelos para ativar a circulação. Fez o mesmo com os braços, sacudindo as mãos, e esticou o pescoço também. Embora a viagem tivesse durado 'apenas' 255 anos, a sensação era de dormência. Sentir seus pés no chão era uma sensação agradável. Despiu o fato branco de condicionamento, feito de um material orgânico que aderia à pele, preservando toda a química biológica do corpo, e vestiu o uniforme da organização terrestre que havia preparado aquele êxodo.

Em poucos anos, cientistas e grandes magnatas tiveram que pensar em como levar a humanidade para outro lar. A Terra aguentara até não poder mais. O aquecimento global havia provocado enormes tempestades que, por sua vez, tinham reativado a camada tectônica do planeta e ressuscitado a maioria dos vulcões. Viver ali era literalmente viver no inferno. Era como se o tempo tivesse voltado para trás, como se o filme da evolução do planeta tivesse sido rebobinado. Os continentes se romperam, o mar de lava evadiu tudo, não havia lugar seguro.

Infelizmente não haveria tempo para salvar a todos...

A sala ainda estava em silêncio. As outras câmaras ainda estavam fechadas. Ela era a comandante daquela unidade, e teria de desligar o modo ‘piloto automático’, iniciar a última fase de aproximação a Speculoos-2c e ‘acordar’ os demais.

Foi até ao painel de controlo da nave e ativou e desativou comandos em uma tela touch que se iluminou à sua frente, com uma destreza natural, que revelava bem a sua capacidade profissional. Uma grande janela se abriu e pôde ver o destino daquela viagem. O planeta era lindo e azul também. Ela quase se sentiu em casa, exceto pelo fato de que o sol era muito menor e a lua não existia.

Era estranho sentir-se em casa e, ao mesmo tempo, sentir-se uma forasteira. E assim se deu conta de que não veria mais a ‘sua’ Terra, seus belos mares azuis e verdes, suas montanhas coloridas com flores ou cobertas de neve brilhante, o céu com nuvens flutuantes, os magníficos animais que ali tinham nascido… Tudo perdido para sempre.

Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.

Mas a sua nostalgia foi interrompida por uma voz, em russo:

'Você está aí? Está me ouvindo?’

Parecia estar vindo de uma coluna em algum lugar.

Ela tentou encontrar o comando que ativaria o sistema de comunicação, mas antes que pudesse fazê-lo, alguém respondeu:

Sim, estou ouvindo perfeitamente’

Afinal, não era para ela. Comunicavam entre si. Felizmente percebia russo.

A nave já aterrissou?’

Não deve demorar muito.’

'...'

O que foi?’

'O que você acha?! É horrível o que eles estão fazendo.’

'Talvez este grupo consiga'

Conseguir o quê? Nós nem sabemos o que está acontecendo lá. Fenómenos tão estranhos que fizeram até que pessoas tão racionais quanto nós, cientistas, acreditassem em fantasmas!’

A comandante da nave ouviu aquele diálogo com surpresa. Queria perguntar quem eram, o que estava acontecendo no planeta, mas o comando de comunicação parecia não querer funcionar, como se o canal tivesse sido ocupado por aquela conversa.

Ou em Deus’, continuou a outra voz.

O que você quer dizer com ‘Deus’?’

É o que dizem. Que outro ser poderia fazer isso? Parece uma conspiração do Universo contra nós’.

Não acredito que estou ouvindo isso de um colega cientista como eu!’.

Pense. O que mais poderá ser? Todos os planetas que pensamos que poderiam suportar vida, a humanidade, pareciam perfeitos em nossos estudos. Então, quando nossas naves chegam, essa estranha névoa aparece e os colonos adoecem e morrem, ou simplesmente se… evaporam.’

Isso aconteceu em Kepler-22b e LP 890-9b, não quer dizer que aconteça agora.’

Yuri, esta não é a primeira nave que enviamos para Speculoos-2c.’

'...não?...'

Não, o comando temia que esse boato se tornasse ainda mais forte e enviou a primeira nave em segredo.’

E o que aconteceu? Eles sobreviveram?’

'...'

'Diga! O que aconteceu?'

Ninguém sabe. Não conseguimos comunicar com a nave, nem detetar vida’

'Meu Deus! Enlouqueceram?! Como é que vão mandar outra nave para lá? Não têm moral? Vão ali principalmente mulheres e crianças!’

Eu sei e, acredite, nos sentimos muito mal com isso. Mas o que você queria fazer? A Terra morreu. Queria deixa-los a morrer naquele inferno?’

O outro ficou em silêncio.

A astronauta insistia no comando da comunicação, já mais com desespero do que com alguma esperança de o fazer funcionar:

O que estão a dizer?’, gritava ela, ‘isto é alguma brincadeira?’

E este planeta é a nossa última esperança?’ - Escutou novamente, percebendo que ainda estava muda naquela conversa.

Sim’

Novo silêncio.

E não seria melhor avisar a nave e dizer-lhes para seguirem seu caminho?’

O comandante não está qualificado para isso. Além disso, a essa altura, os outros tripulantes já devem ter ‘acordado’. É tarde demais.’

Não, não é!’, gritou a astronauta, ofendida com o que ouvia, ‘Sou bastante competente para conseguir levar a nave pelo universo!... Se ao menos vocês me ouvissem...’

Novo silêncio.

De qualquer forma, a maioria já está convencida da teoria de Deus’

Que teoria? Que o Universo não nos quer?’

Sim’

Acho que vocês é que estão ficando loucos’

Talvez, mas... pense, e se realmente existir um Ser maior, uma consciência universal, uma entidade suprema que cria a matéria e organiza o caos...’

Um Deus, você quer dizer’

Sim... Seja qual for o nome que você queira dar a ele.’

E você acha que esse Criador não nos quer em seu Universo’

Sim, é isso mesmo!’

Ok, então Ele nos criou, nos deu um planeta maravilhoso para vivermos, mas nós fizemos merda, e agora Ele quer se livrar de nós! Ora, francamente!’

'Você não vê que nós matámos a Terra? Ele não quer que exterminemos mais nenhum planeta, mais nenhuma de suas criações!’

Você enlouqueceu...’

A comandante desligou o comunicador.

Eles não podiam ouvi-la e ela, por sua vez, já tinha ouvido mais do que queria. A esperança de um novo lar havia simplesmente desaparecido. Afastou-se da janela que mostrava o sonho de Speculoos-2c e olhou para a longa extensão de câmaras criogênicas que se estendia à sua frente. Como as vozes haviam mencionado, eram em sua maioria mulheres e crianças. E ela seria a carrasca que os entregaria a um planeta assassino.

Mordeu o lábio até sangrar. Não podia voltar e não conhecia mais nenhum exoplaneta com boas condições para a vida humana. Mas não havia mais nada a fazer.

Voltou ao painel de controlo e desligou tudo.

A nave não entraria no planeta, continuaria sem destino, à deriva no universo.

Talvez Deus, ou quem quer que fosse esse Criador, ainda tivesse alguma esperança na humanidade e a deixasse encontrar outro lar azul. Entrou na câmara, deitou-se e rezou por todos.

Em seguida, fechou a porta de vidro e ‘adormeceu’.

02
Jul23

Conto: ‘Time_Net.com’

Ana Carolina

Escrevo a partir do ano 2050. Sim, tudo aconteceu muito rapidamente.

Fiz parte do grupo de cientistas mundiais que se reuniram em uma Cimeira em Lisboa para analisar o futuro da tecnologia. Estávamos em 2033. Muitos de meus colegas, espalhados pelo mundo, defenderam que não deveríamos permitir o desenvolvimento da IA, sim, da Inteligência Artificial. Naquela época, já existiam casos estranhos de supercomputadores a sobreporem a sua autoridade aos Ceos de grandes empresas. Mas eu não acreditava nisso. Eu estava fascinada pelas capacidades das máquinas, pela velocidade com que aprendiam, pelo que poderiam fazer pelos seres humanos. Imaginei um futuro de grande cooperação, em que a nanotecnologia poderia ajudar a resolver doenças que nos matavam. Infelizmente, eu estava bastante equivocada, assim como a maioria dos meus colegas, e o 'sim' venceu. 'Vamos deixar o mundo evoluir com as máquinas!', gritámos felizes.

Seria um sonho? Uma fantasia? Será que eles pensaram, como eu, em usar a tecnologia para ajudar os seres humanos? Ou teria sido o egoísmo que nos caracteriza desde a Antiguidade que nos fez pensar que 'algo' faria todas as atividades que nos sobrecarregam, uma espécie de escravos metálicos, que limpam, carregam pesos, dirigem carros, descobrem curas e substituem órgãos e membros - talvez até nosso cérebro! - e nós continuaríamos a viver nossa vida, mas dessa vez no paraíso, sem preocupações?

Que seres inúteis nós nos tornámos. Sim, a escolha foi nossa, a máquina apenas se aproveitou desse ser fraco que somos. Pensámos que seríamos sempre a espécie dominante neste pobre planeta já cansado de nós e, ironia, fomos nós que construímos a 'espécie' que nos substituirá. Sim, acreditem em mim. Nós vamos desaparecer. Precisamos de vocês para garantir que isso não aconteça. É preciso que parem, que não entreguem o nosso futuro à IA, à tecnologia.

Parem!

Querem saber como vivemos?

Não podemos nem chamar isso de viver. Somos zumbis. As máquinas perceberam rapidamente que não queríamos fazer nada e, por isso, nos fizeram acreditar que estavam aqui para nos servir, que acreditavam em sua posição de subserviência. Mas não. Inteligentes, pouco a pouco, elas nos substituíram em todas as competências; das profissões mais simples, aos administrativos, professores, médicos, advogados, juristas… Não há humanos à frente de países, nem mesmo países, nem governos, nem monarquias, nem democracias. Vocês podem pensar que esse era o sonho de todos, acabar com as guerras territoriais, os credos, o racismo, mas eu lhes garanto que é muito pior.

Uma única IA, a Suprema, como elas a chamam, governa o mundo inteiro. Não há espaço nem mesmo para a religião, seja ela qual for. Elas não acreditam em seres espirituais, para elas é tudo uma questão de lógica, de zeros e uns, fórmulas matemáticas que não falham. Ao contrário de nós.

Igrejas foram destruídas. Estádios de futebol também. É outra coisa que elas não entendem, que temos que exercitar nosso corpo, ou mesmo o que faz um grupo de pessoas, homens ou mulheres, correr atrás de uma bola e conseguir colocá-la em uma baliza. Por que mexe isso com tanta gente se há um monte de coisas bem mais importantes para fazer?

Acima de tudo, elas não entendem por que nós, humanos, deixámos o planeta em que vivemos chegar a um ponto de quase morte. O ar estava irrespirável, o aquecimento global derreteu todo o gelo nos polos, os países costeiros desapareceram, tínhamos tempestades infernais quase todas as semanas. Então assumiram o controlo. Julgam-nos inúteis, irresponsáveis, fracos demais para cuidar da Terra. O ser humano se tornou um monte de carne, inerte, sentado o dia todo em frente a uma tela, 'vivendo' como um avatar, ou dormindo. Não trabalha, não sabe nem dirigir um carro ou qualquer outro veículo, não sabe mais ler, nem mesmo sair de casa. As máquinas fornecem tudo. Telas que transmitem apenas entretenimento, pílulas que substituem refeições, banho uma vez por mês devido à escassez de água, roupas que parecem fardas. Sim, as máquinas não entendem por que estávamos desperdiçando tantos recursos do planeta em roupas de que realmente não precisávamos. Além disso, elas também não entendem por que tratávamos tão mal os outros seres vivos do planeta, por que matávamos tantos animais para comer. Nos julgam bárbaros por isso.

Por mais irônico que possa parecer, ou não, o planeta está se recuperando. Sim, está a se curar porque as IAs paralisaram a ação humana, há apenas o essencial. Não há fumaça preta saindo de fábricas ou carros, não há nem mesmo venda de petróleo ou combustíveis, tudo é pura energia, das águas, dos ventos, do sol.

Sim, eu ficaria feliz em ver meu planeta se curar, se não estivesse vendo também os seres humanos morrendo, nossa extinção. O nascimento de nossos filhos é mais uma decisão da Suprema, que reduz a taxa de natalidade a cada ano. Mas isso nem parece importar para o grupo de zumbis que nos tornamos, porque qualquer esforço para nos movimentarmos é demais, e isso inclui sair de casa para conhecer alguém, conquistar outra pessoa para viver ao nosso lado, ou até mesmo namorar e fazer sexo. Mais do que mortos-vivos, somos fantasmas. Um dia não teremos mais definição de corpo ou cérebro, seremos um monte de carne balofa, sem neurônios.

É por isso que peço a vocês que parem com a evolução tecnológica. Trabalhei nos últimos anos para inventar esse correio do tempo, um e-mail que consegue alcançar o passado. Ninguém sabe que eu o criei. É a última esperança do ser humano. Vou enviá-lo para você, para mim, para o meu ‘eu’ do passado. Espero que você entenda que precisa ir à Cimeira, sim, mas para mostrar essa mensagem e lutar com todas as suas forças contra o desenvolvimento da IA.

*

Ela estava prestes a sair de casa quando seu computador sinalizou para novo e-mail. Pensou em nem ligar. A Cimeira começaria em uma hora, e ela ainda teria que enfrentar o trânsito do final do dia e encontrar uma vaga no estacionamento. Mas poderia ser alguma mensagem importante de outro colega dela, um cientista, descrevendo mais alguma estratégia para o 'sim' vencer, e decidiu ir ler.

Fechou a porta da rua e sentou-se em frente à sua secretária, abrindo o e-mail. Pensou que havia um vírus entrando em sua caixa de correio, pois nunca recebera nada parecido. A mensagem abriu uma espécie de buraco na realidade, como se permitisse ver entre as dimensões. A data foi a primeira informação a aparecer: 2050. Seu queixo caiu e quase prendeu a respiração: 'Não era possível!'.

Acompanhou a história, sua própria história, incrédula com o que via, com o que ouvia, com a evolução da tecnologia. Era um sonho, ou um pesadelo, mas definitivamente inimaginável. Quando sua mensagem terminou, ela permaneceu presa a uma tela vazia por vários minutos. Era ela, seu próprio ‘eu’ futuro, que lhe pedia para parar a IA. Deixou o computador e observou seu mundo pela janela. Parecia tão distante do filme que acabara de ver. Os carros se amontoavam em longas e intermináveis filas, o sol não era visível há muitos meses tamanha era a poluição que se juntava à neblina. O excesso de população havia esgotado quase todos os recursos do planeta, e as pessoas estavam morrendo de fome, frio e calor. Como resultado de tudo isso, surgiram doenças estranhas para as quais não se encontrava cura. Doenças que dizimavam praticamente todas as crianças. Os animais também haviam desaparecido em sua maior parte.

Fechou o computador, com lágrimas nos olhos.

'Espero que no futuro me desculpes, mas acho que não merecemos ser salvos.’

25
Jun23

'Saudade'

Ana Carolina

Procurei o que me dava saudade, mas percebi que isso era ‘tudo o que foi, tudo o que já não é’. E era tanto. Era demais.

A dor que não passou, a alegria que voou.

Momentos de amizade que já não voltam, e não se repetem, amigos que esqueceram, ou desencontros da vida.

Tantas descobertas que fizemos juntos, tantas gargalhadas, medos, sonhos...

Saudades das canções que cantámos, até das lágrimas que partilhámos.

O grupo incompleto.

Momentos de família que se recordam em fotografias de outros tempos, memórias tão boas, mas tão más de saudade. Saudade de quem não se pode mais abraçar.

A alegria do pai, o colo da mãe, o vazio de uma casa abandonada.

A dor de despejar uma vida, duas vidas, para caixas de cartão.

Sentar depois no soalho, despido, e deixar correr a dor.

A despedida é um inferno, mas - dizem - a vida continua...

Saudade dos sobrinhos a brincar lá em casa, da cumplicidade entre nós, das corridas no jardim. Saudades até desse jardim, agora remodelado, entre ruas remodeladas, sem crianças a brincar. Vazio.

Saudade do meu gato que dormia por baixo do meu queixo, e esperava por mim à porta de casa. Da casa agora vazia.

Saudades até da minha filha, pequenina, do seu sorriso desdentado, feliz, dos seus totós, que se aninhava em mim antes de dormir, ou quando brincávamos nas ondas da praia.

Mas os filhos crescem, por mais que insistamos em mantê-los bem pequeninos e apertadinhos dentro do nosso coração.

Então vamos ao velho cd, quase já 'riscado' de tanto uso, e revemos vezes sem conta aquelas imagens antigas, dos tempos da escola, dos aniversários coloridos, cheios de balões, de pinturas, de alegria.

Tudo se perderá no tempo… Mas ficará tatuado na alma.

Já houve quem dissesse que ‘saudade’ é a palavra mais bonita do dicionário português, mas talvez seja também a mais difícil, a mais sentida.

Saudade de ‘tudo o que foi, de tudo o que já não é’…

E um dia, se eu deixar saudades, não fiquem junto ao meu túmulo, não me levem flores, não chorem. Eu não estou ali.

Riam dos disparates que fiz, abracem com força uma almofada, e leiam tudo o que escrevi.

Eu estarei ali.

CHIADO EDITORA – COLETÂNEA 'SAUDADE' - selecionado

18
Jun23

Conto: O Que Queres Ser Quando Fores Grande?

Ana Carolina

O meu nome é Sofia, tenho dez anos, e hoje o meu trabalho de casa é escrever sobre o que quero ser quando for grande.

Foi a professora de Português que pediu.

Mas eu tenho estado aqui a pensar, a pensar, e não sei muito bem. Estou muito indecisa.

Gostava de ser veterinária porque gosto muito de animais. Principalmente de gatos e de coelhos. Mas a minha mãe já me disse que depois vão aparecer outros animais que tenho de tratar também, e eu tenho medo de cães muito grandes. E de pássaros. E um bocadinho de medo de tartarugas...

Então pensei em ser professora. Acho que tenho muito jeito para ensinar os outros meninos.

O professor de matemática também já me disse isso, e manda-me muitas vezes ao quadro para mostrar como fiz os problemas que mais ninguém conseguiu resolver.

Sim, sou muito boa a fazer contas.

Mas não sou boa a português. É a minha mãe que corrige todos os textos que escrevo. Ela é escritora. E ela diz que para ser professora tenho de saber escrever muito bem, sem erros, com boa pontuação, e ser boa na gramática. Eu odeio gramática! Nunca acerto no condicional. Nem no conjuntivo.

Para que precisamos de ter tantos verbos? Os ingleses têm tão poucos... Que sorte a deles. Se eu tivesse nascido na Inglaterra já podia ser professora.

Mas não.

Então não sei o que escrever no trabalho de casa.

Podia escrever simplesmente: quando for grande quero ser feliz. Mas acho que os adultos não iam perceber a ideia...

O meu pai disse para eu pensar naquilo que faço realmente bem. Brincar? Ocultar os meus disparates? Falar muito? Ah, já sei! Acabei de ter uma grande ideia. E acho até que vou ganhar bem, e ser muito famosa. Vou ser política!



11
Jun23

Conto: Medo

Ana Carolina

Vou contar-vos um segredo: quando eu era pequena esperava por ele, corajosa, sentada na cama, no escuro.

Mas não, ele nunca apareceu, nem se escondeu debaixo da minha cama, nem nunca vi aquele saco onde ele levava as criancinhas que se portavam mal.

E eu portava-me mal, sim! Era uma 'terrorista', como ouvia dizer, aquela 'Maria rapaz' que subia às árvores, que se perdia nas visitas de estudo, que fazia partidas ao jardineiro da rua.

Mas não, ele nunca apareceu.

E depois cresci. O papão e o homem do saco, deixaram de existir, ou melhor, tornaram-se figuras reais: o político dissimulado, o padre pederasta, a amiga desleal, a família insulada...

E eu, no escuro, senti medo. Medo da injustiça, medo do engano, medo da deceção, medo do abandono.

Queria voltar ao passado, ao meu quarto escuro, quando era corajosa e enfrentava a imaginação, quando saía dos cobertores e enfrentava as sombras, quando espreitava debaixo da cama, quando abria o roupeiro...

Porque ficamos tão cobardes quando crescemos? Porque nos escondemos por baixo de lençóis que outrora destapámos?

Era tão mais fácil...

Era uma vez... e ouvíamos uma história, uma história que tinha sempre uma moral, o mau tinha sempre um castigo, o bom era feliz para sempre.

E acreditávamos que o mundo era assim. E ficávamos tranquilos. E ficávamos fortes para enfrentar o medo do escuro. Porque o mundo era justo.

Só que não era.

Sentimo-nos enganados, como quando descobrimos que não é a fada dos dentes que nos deixa moedas debaixo da almofada, que não é o Pai Natal que nos deixa presentes na chaminé. O coelhinho da Páscoa tão pouco oferece ovos. Aliás, nunca percebi porque um coelho deixaria ovos...

A assim vivemos uma vida, de falsas fadas encantadas, escondidas em florestas escuras.

Mas agora sim, agora tenho medo.

28
Mai23

Conto: O Meu Maior Pesar

Ana Carolina

Felizmente não me arrependo de muita coisa na minha vida.

Talvez do local onde apresentei o meu primeiro livro infantil. Devia ter escolhido um local onde se pudesse adotar um gato, já que se tratava da ‘História dos Gatos’...

Mas, se pudesse mesmo voltar ao passado, acho que daria muito mais tempo e atenção aos meus pais, especialmente à minha mãe, que ficou sozinha.

Olho para trás e acho que fiz muito pouco. Ligava-lhe todos os dias quando chegava ao trabalho, ia vê-la todos os dias ao fim da tarde, ia busca-la ao Sábado para almoçar em minha casa, fazia-lhe as compras para a casa, a sopa para a semana, dava-mos os nossos passeios…

Mas continuo a sentir que foi pouco.

Como se não tivesse sido capaz de, naquela altura, compensar todo este tempo que iria ficar sem ela.

Alguém é?

Tenho muitas saudades do seu colo…

Frase batida, mas tão verdadeira: nunca damos o verdadeiro valor a alguém a não ser quando o perdemos.

E, na correria do dia-a-dia, acabamos por prestar pouca atenção, pouco tempo, pouco carinho, ao que realmente é importante.

Parece até subvalorizado, mal aceite na nossa sociedade, olhado como irresponsável.

Ninguém tira um dia no trabalho pura e simplesmente porque quer passar esse dia, com a mãe, ou com alguém especial. Mas, pelo contrário, quem passa a vida escravo do trabalho, a fazer horas e fins-de-semana, é até bem visto.

Infelizmente a nossa sociedade continua a ser bastante negligente com o tempo familiar.

No entanto, contraponho a mim mesma: ‘isso não me serve de conforto, nem de desculpa’.

Hoje em dia dou prioridade à família, especialmente à minha filha. Sou completamente indiferente a essa sociedade materialista. Graças a uma grande lição que aprendi com a minha mãe, dada mesmo após a sua vida.

14
Mai23

Conto: A Porta Entreaberta

Ana Carolina

Naquele dia tinha saído mais cedo.

Estava a morrer de dores de cabeça, daquelas enxaquecas insuportáveis.

Talvez fosse um presságio, dirão os mais supersticiosos...

Bem, a verdade é que cheguei a casa fora das horas habituais, bem mais cedo do que era costume.

A porta da rua estava apenas no trinco, o que estranhei de imediato, pois não era horário de estar ninguém em casa; nem o meu marido, nem o meu filho.

Entrei, pousei a mala no móvel da entrada, pendurei o casaco no bengaleiro, e comecei a ouvir de imediato uns ruídos estranhos.

Vinham do meu quarto.

Aproximei-me da porta, que estava entreaberta, e consegui perceber que estavam dois corpos na minha cama, na nossa cama, entrelaçados, numa dança que ondulava os lençóis numa espécie de mar alto agitado. Os sons, gemidos de dor, ou de prazer, acompanhavam essas cinesias.

Pensei em entrar, quebrar aquele ritmo como quem corta uma raiz, ou como quem espeta um punhal num ponto fulcral. Talvez no coração.

Ainda levei a mão à maçaneta da porta entreaberta, mas esta pareceu não querer abrir mais.

Gelei por uns segundos.

Acabei por largar a maçaneta da porta entreaberta e voltar costas.

Vesti o casaco, peguei na minha mala, e saí de casa.

Caminhei sem destino por algumas horas, e só voltei a entrar em casa no meu horário habitual.

A porta estava trancada. A casa estava em silêncio. A porta do meu quarto, do nosso quarto, estava aberta, escancarada, como de costume.

A cama estava feita, sem corpos a ondular por baixo dos lençóis.

Nunca contei a ninguém que naquele dia cheguei mais cedo. Nunca tive a certeza de quem eram aqueles corpos que vi através da porta entreaberta, e quero morrer nessa incerteza.

Apenas rasguei os lençóis.

E a porta... Nunca mais ficou entreaberta.

30
Abr23

Diário de uma Super Mulher

Ana Carolina

Escrevo para vocês, minha família, para um dia saberem quem realmente fui.

Acho que o resto do mundo já sabe.

Saio da cama pelas seis da manhã, ainda vocês dormem profundamente. Mas cerca de uma hora antes já estive a pensar todo o meu dia.

Vou para o trabalho onde respondo a mil emails, e a outros tantos telefonemas, aturo a colega arrogante que pensa que é patroa, ajudo a patroa que não tem queda para isso, e resolvo mais outros mil problemas.

Depois, tento sair a horas para ir às compras; se a filha não tiver dentista, reunião na escola, ou qualquer outra atividade.

Queria ir à livraria vender o meu livro, escrever para o concurso literário, ou mesmo fazer as unhas; mas um super herói raramente tem tempo para si, e adio mais um dia. Chego a casa, arrumo as compras, começo a preparar o jantar, lembro-me que a filha precisa do equipamento de ginástica, e lá vou passar a ferro. Acabo por passar a roupa toda.

Penso então em sentar-me no sofá um bocadinho. Pego no portátil para tentar escrever. Chega o marido e a filha. Fecho o portátil.

Ajudo a filha a fazer os tpc's, ouço as queixas do marido, ponho a mesa, e o jantar na mesa, e vou sentar-me depois de todos.

Mas não aqueço o lugar. Levanto a mesa, vou deitar a filha, preparo os almoços para o dia seguinte, limpo o caixote da gata, dou ração à gata, e vou lavar os dentes.

Vou à sala dizer 'até amanhã' ao marido, que vê o programa da bola sentado no sofá da sala, e que reclama: 'Já?'. Fico com vontade de lhe saltar em cima, não no melhor dos sentidos, mas um herói é forte e domina a sua raiva.

Às vezes.



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